sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Trocando em Miúdos

        
        Demorou a chegarem àquela situação. Quantas brigas antecederam aquela? Ele sentado na cadeira da sala olhava a televisão desligada cujas prestações nem haviam sido totalmente pagas. Ela sentia uma dor intensa no peito. Uma dor que não era física mas que a derrubara ali, no tapete atrás da porta. Pensava no começo, no primeiro beijo, no primeiro cinema, na montagem da casa...
          Reclamava baixinho, chorava tímida e encolhida naquele canto. Não poderia ser o fim. Ele pegava algumas coisas de extrema necessidade e jogava na velha mala preta, usada na viagem pro campo no verão passado. Pegou o disco do Noel, algumas camisas. Deixou um dinheiro sobre a mesa e tentava se despedir sem chorar.
         Olhava-a ao pé da cama desarrumada. As marcas do amor naqueles lençóis quase o impediriam de ir, não fosse o fim tão imprescindível.  E, no entanto, naquele momento de despedida, pra piorar a situação, passava-lhe pela cabeça as melhores lembranças. Ela estava ali, linda, os cabelos desgrenhados sobre a face. Não queria ir.
       O incômodo silêncio transformava o que havia passado em sombras. Não havia esperança de as coisas se arrumarem. Não se pode requentar o amor. Podiam prosseguir baseados em memórias de um passado que não existe mais? Ele saiu frívolo, como a aliança que repousava sobre a mesa, a esta altura encharcada de lágrimas.
        Bateu o portão sem deixar ruído, como um fugitivo. Mas não era uma fuga? Ela se desmanchava, só. Seria justo que ele a abandonasse mesmo quando ainda havia amor, nas duas partes? Seria aquela realmente a gota d’água? Já haviam passado por tantas coisas juntos... Talvez agora ele estivesse mais feliz. Não voltariam. Dessa forma, ela enxugou com as costas das mãos a última lágrima e dormiu. Sobre a dor? Ainda não passou, mas vai passar.

4 comentários:

  1. ''[...] Dizer o que depois do que foi dito?
    Argumentar o que?
    Eu não amei aquele cara, eu tenho certeza disso.
    Não era amor, então era o que ?
    Eu tava feliz, eu tava tranquila, tava bem sintonizada, e levei uma porrada ... ai que sensação horrível!
    Não, não era amor, era uma sorte, uma travessura, uma sacanagem, eram dois celulares desligados. Não não era amor, era inverno, era sem medo, NÃO ERA AMOR ... ERA MELHOR [...] ''

    Seu texto me fez lembrar esse trecho da Martha Medeiros e ambos os textos, tanto o seu quanto o dela são ótimos. Espero que continue escrevendo para que eu possa voltar sempre!
    Abraços e ótimo final de semana.

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  2. Olá! No momento estou apenas te seguindo, mas prometo voltar e comentar em breve suas postagens!Agradeceria se seguisse o meu blog, assim criamos um vínculo que facilite a divulgação de ambos os blogs! passa lá?
    http://medicinepractises.blogspot.com/

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  3. É estranho quando um relacionamento acaba quando ainda existe amor. O que faz com que isso aconteça? Comigo já aconteceu por orgulho, mas, em outros casos, o que faria? São tantos mistérios e tantos aspectos que fazem com que a gente ame alguém. Ainda é possível confundir amor com desejo, com química. Creio que esse último aspecto seja o mais valorizado atualmente.

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  4. Já terminei relacionamentos assim. E quando acontece, sempre rola uns flashbacks

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